Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Listen like nobody's watching

A mulher que ama música.

Listen like nobody's watching

A mulher que ama música.

Para boa história, bom sonoro.

 

Lisboa. Call me by your name. O filme. Visto há cerca de um mês. Dirigido por Luca Guadagnino e escrito por James Ivory, foi nomeado para os Óscares, Globos de Ouro e para os Prémios Screen Actors Guild, entre outrosEstive indecisa sobre ver já, ou mais tarde - atendendo à lista de filmes e séries que a pessoa vai acrescentando, dia após dia, sem fim à vista. Tinha uns à frente deste. Mas lá aconteceu. 
A medo - ou com desconfiança - escolho experimentar e tirar conclusões. Falo com uma amiga, muitíssimo erudita na arte, que acaba por me contar da sua veneração pelo filme, e me persuade a fazer o mesmo. Foi a pessoa que me pôs a ver a série La Casa de Papel - confiei. Apreciei o filme e, ainda mais - claro está - a banda sonora. 

 

Para os que estão pouco familiarizados com o assunto, a história passa-se à volta de duas pessoas, com orientação homossexual - no caso, gays -, que se conhecem num verão dos anos 80, no norte da Itália. Um americano e um italiano. Um amor. O primeiro - aqui já se diz tudo. O mistério inicial. A afinidade e o companheirismo. As componentes essenciais para que algo se torne digno - de ser eterno. 

 

É legítimo. Normal. Não nos encontrássemos nós em pleno século XXI. Homossexualidade é um termo a que todos já estamos habituados - e não, não digo isto para chocar. Pelo menos, conscientemente.  O que mais me impressiona - até porque não costuma ser fácil -, o que mais aconhega a alma, é a coragem daqueles pais (pai e mãe), os de Elio - um dos amantes em questão - no momento em que aceitam as circunstâncias. Esse momento que parece ser desde sempre.
Como assim o filho de 17 anos é gay e o que se faz é aceitar? Estar "à frente" do seu tempo. Só: aceitar. 

 

Um dia quero ser assim. Se for preciso, aceitar. As pessoas que viram o filme dirão "O pai de Elio aceitar é relativamente fácil, até porque ao longo do filme pode subentender-se que se mostra homossexual". Isso. Contudo, a mãe de Elio presume-se heterossexual, e, no meio de tantas outras coisas, vai buscar o filho à estação de comboios - a kilómetros de distância de casa - para "estar lá", num momento fulcral. Talvez seja o amor incondicional de pai para filho. Sem restrições, é assim que se diz

Possivelmente. Por ter tido avós que estudaram ou correram mundo, e tenham passado essa virtude a meus pais - a de achar a diferença normal, ou a de olhar para o outro e, efectivamente, perceber que existe um "outro" que não sou eu e que, mesmo assim, posso respeitá-lo - vejo a questão de ser diferente como algo natural. Não vejo motivo para tratar alguém de forma desigual apenas porque gosta de pessoas do mesmo sexo que o seu, enquanto eu gosto de pessoas de sexo diferente do meu. Diria que é assim. E, neste caso, é um drama romântico, independentemente da orientação.

 

Considerações à parte, vemos que qualquer ponto a ver levantado é abençoado com boa música. Para uma boa história, boa banda sonora. Soundtrack exaltado em várias línguas. Cantado, quer em inglês, quer em italiano ou francês. Do Hallelujah Junction, à Radio Varsavia, passando pela icónica Love my way, da banda The Psychedelic Furs (1982). Do enquadramento inicial à acalmia final. Do encantamento - quase inocente - ao momento de contacto com a realidade. Uma arte que contribui a 200% para se idolatrar tal longa metragem. Sufjan Stevens ajuda.

 

É determinante o som do chilrear dos pássaros na paisagem envolvente à leveza de cada cena desenhada. Mais ainda, poder ver-se a arte greco-romana a transcrever-se em harmonias como a "Mistery of Love". É das minhas músicas preferidas e desconhecia a sua nomeação para os Óscares na categoria de Melhor Música Original. Deve ser a música preferida de toda a gente. Suponho.

Para mim, é a voz de Sufjan quem lhes dá ênfase - quando encanta aos sussuros. O artista colocado ali que nem uma luva! Parece entregar-se à composição das suas canções enquanto Elio e Oliver se entregam ao sentimento. E tem toda a razão de ser. E a sua beleza. Até porque dessas entregas, alcançamos raras vezes numa vida só. 

 

7 comentários

Comentar post